Estou hirto, sem vida.
Procuro, na minha frieza, servir-lhe de guia.
Disseca-me o corpo formolizado,
sem futuro, só o passado,
a descansar sobre esta mesa, também fria.
Também fui jovem como você,
cantei, chorei, sofri,
tive sede, desilusões, bebi.
Senti frio, calor e o perfume da flor
e no ouvido de alguém pronunciei
muitas palavras de amor.
Não falo sobre o meu fim,
só me lembro de quando eu era feliz.
A velhice não interessa
foi má, foi perversa.
Hoje estou aqui, sentindo suas ágeis mãos,
com tesouras, pinças, bisturí.
Tão paciente comigo, curvado sobre mim,
identificando aqui uma veia
ou uma artéria ali.
E...na minha ignorância muda,
sinto-me feliz em ser-lhe útil.
Poema/monólogo composto por mim em 1966, quando cursava o 2ºano de medicina na PUC-PR , em Curitiba e que era declamado por jograis na missa anual do cadáver.